22 de setembro de 2015

Começaram por escrever para os outros mas rapidamente passaram a personagens principais. 



Quando apareceram, em 2003, as grelhas de humor televisivo eram disputadas entre “Os Malucos do Riso” na SIC, “Os Batanetes” na TVI e, na RTP, as piadas resumiam-se às de Fernando Mendes, que apresentava o então acabado de estrear “Preço Certo”. Estavam reunidas as condições para arriscar em algo diferente do que até à altura tinha sido feito e, ainda numa era sem YouTube, Facebook ou Instagram, a SIC Radical era aquilo que se pode chamar de palco para novos talentos.

E agora? As aparições televisivas dos quatro enquanto grupo de humor têm sido cada vez mais escassas nos últimos anos. Desde 2009, quando “esmiuçaram os sufrágios” para as eleições desse ano, surgiram apenas nos dez minutos que a SIC dedicou a um programa especial a que deu o nome de “A Solução”. O programa não foi além do quinto lugar na tabela de audiências, longe do sucesso de alguns dos episódios do “Esmiúça os Sufrágios”, que lideravam quase sempre as preferências dos portugueses.Ricardo Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela foram convidados para fazerem sketches humorísticos no programa “O Perfeito Anormal”, apresentado por Fernando Alvim. “Fui o Júlio Isidro destes dois gatos”, brinca Alvim, que mesmo numa catadupa de piadas não deixa de lhes elogiar o “imenso talento”. 

Apesar de o convite ter sido feito só aos dois, os Gato já eram quatro há algum tempo. Com Tiago Dores e Miguel Góis, assinavam um blogue “com opiniões, nenhuma das quais quase devidamente fundamentadas”, pode ainda ler-se na descrição do que sobra desta página com domínio blogspot. Além disso, o quarteto trabalhava já nas Produções Fictícias a escrever textos para programas do Herman José.

O sucesso das piadas escritas na internet e da interpretação de Ricardo e Zé Diogo na televisão não deixou Francisco Penin, o então director da SIC Radical, indiferente, avançando com um convite para um programa independente.

Fonseca foi o apelido escolhido para a primeira série, à qual se seguiram a Meireles, a Barbosa e a Lopes da Silva. Quando no Natal de 2004 foi lançado um DVD com a primeira temporada, tornou-se automaticamente n.o 1 no top nacional de vendas

Por incompatibilidades com a SIC, que exibiu alguns episódios no canal generalista, o final das temporadas foi já feito na RTP, canal onde decidiram arriscar num novo formato, o talk show. Mais uma vez com ideias fora da caixa, os Gato Fedorento desviaram-se do convencional e fizeram do “Diz que é uma espécie de magazine” um sucesso tal que teve honras de emissão em directo do Pavilhão Atlântico, na passagem de ano de 2007/08, mesmo quando a cabeça dos quatro humoristas estava a passar de 1984 para 85.

Depois de uma ausência prolongada, bastou dar o regresso dos Gato como certo para que começasse o burburinho de quem espera ansiosamente por novas piadas, mas com o humor de sempre. Apesar da expectativa, o “Isto é tudo muito bonito, mas”, que passa durante o “Jornal das 8” da TVI, não tem vindo a traduzir-se numa vitória nas audiências e a estreia, que contou com Jerónimo de Sousa na cadeira de entrevistado, ficou-se pelo sétimo lugar do top.
Eduardo Cintra Torres não poupa críticas ao formato escolhido para o regresso. O crítico de televisão acredita que o programa “denota o desgaste” do grupo. “Já não há a mesma graça, empatia ou ingenuidade de outros tempos.” 
Alheio às críticas está Zé Diogo Quintela, o único dos Gato a falar com o i, aproveitando um dos poucos intervalos das gravações do programa. “Não tenho tido tempo de procurar reacções. Todo o tempo que passo acordado é a trabalhar neste programa.” 

Não se desiludam os fãs que esperavam uma série de piadas a sair da boca (ou das teclas) de Zé Diogo. À segunda pergunta, desmancha-se a seriedade. “Se ainda sentimos o mesmo gozo a trabalhar juntos? Não, isso seria pouco higiénico.”

Se Cintra Torres não hesita em pôr um fim ao grupo, “até porque na prática basta ver que são só três [Tiago Dores não participa neste programa] e já não usam o nome ‘Gato Fedorento’”, Zé Diogo prefere trocar o ponto final por vírgula e, apesar de admitir que “se falta um, não é Gato Fedorento”, garante que o Tiago não saiu do grupo, apenas não está neste programa. 

Do lado optimista do humor – haverá outro? – está Pedro Boucherie Mendes que, apesar da esperança no humor do futuro, não deixa de classificar os Gato Fedorento como “fenómeno irrepetível”. O actual director da SIC Radical acredita que, se daqui a 200 anos se escrever uma enciclopédia sobre a comédia em Portugal, é inevitável que os Gato estejam lá. É esperar para ver.



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