27 de agosto de 2015

Políticos, jornalistas e comentadores na mira dos humoristas a partir de 14 de Setembro com sketches e entrevistas. Alguns líderes partidários já confirmados para serem “provocados”.


Entre os anos eleitorais de 2009 e 2015 um dos convidados dos Gato Fedorento no seu programa sobre as legislativas foi preso, as redes sociais agigantaram-se como fonte de informação e poder e a troika veio passar uma temporada a Portugal. A partir de 14 de Setembro, o “Daily Show das barracas” volta para analisar o discurso político das próximas legislativas pela mão de Ricardo Araújo Pereira, José Diogo Quintela e Miguel Góis num mês de campanha e rescaldo eleitoral nas noites da TVI.
Isso é tudo muito bonito, mas “assim mesmo, sem reticências”, como explica ao PÚBLICO Ricardo Araújo Pereira, será “um programa em que analisamos o discurso de políticos, jornalistas e comentadores”. Tal como em Gato Fedorento Esmiuça os Sufrágios na SIC, cujo formato não é muito diferente do programa que levam de segunda à sexta à noite ao canal de televisão TVI, haverá entrevistas com cada candidato - alguns já aceitaram, de outros aguardam ainda resposta - “ou com alguém relacionado com as eleições”. A apresentar cada emissão estará Ricardo Araújo Pereira.
Será um trio a trabalhar no programa e por isso isto não é um programa do Gato Fedorento, esclarece Ricardo. “Cavaco marcou as eleições para uma altura em que o Tiago Dores não pode, por motivos pessoais, fazer o programa, e isto é mais uma das coisas incompreensíveis de Cavaco”. O tal “Daily Show das barracas”, comparação tradicionalmente autodepreciativa dos próprios comediantes que já remonta ao programa da SIC, será escrito pelos três humoristas.
Não contam com uma pequena equipa de pesquisa como a que tinham no canal de Carnaxide, mas pediram à TVI Vítor Moura Pinto (ex-director criativo na SIC, onde participava como cronista nos anos 1990 n’A Noite da Má Língua), “um jornalista com um olhar humorístico” que fará “uma primeira triagem das imagens”. Imagens vistas ou não usadas pelos jornalistas nas suas reportagens, tesourinhos do passado ou momentos da campanha que está prestes a começar vão ajudar a ocupar os cerca de 20-25 minutos do programa diário.
Depois de em Junho o director de informação da TVI ter anunciado o regresso dos Gato à sátira eleitoral, Isso é tudo muito bonito, mas confirma três humoristas como trunfos para a aposta da TVI  na busca de reforçar audiências. E coloca-os a pensar no que ficou para trás desde Esmiuça os Sufrágios mas também no que podem fazer com isso e com o que mudou.
O programa esteve quase para se chamar Introdução ao Estudo das Narrativas, comenta Ricardo Araújo Pereira, pelo foco que, “por defeito profissional”, os três têm na “linguagem”. “Somos guionistas e é o que pomos na declaração de IRS. O nosso trabalho é escrever piadas” e nos momentos eleitorais “o discurso político e o discurso jornalístico arranja maneira de ser dissimulado, pomposo - como quando se chama 'requalificação' a 'despedimentos', isso tem um potencial humorístico”. Ou “até o modo como a coligação [PSD-CDS] diz ‘não vamos fazer qualquer referência ao facto de o líder do último Governo agora estar preso, não vamos de todo referir que está em Évora, na sala número 44’. Isso é divertido”.
Quando chamam a si a vontade de analisar o discurso e a comunicação política num ano eleitoral de crise do euro, na esteira da troika e já de alguns casos pré-eleitorais, os guionistas dizem saber que o seu poder de sátira é relativo e “imprevisível” e que a presença de um líder político no programa também pode ser usada como “manobra de comunicação”, por exemplo. Ainda assim, garante Araújo Pereira, “o convidado não vai lá para ser bajulado nem humilhado, mas para ser provocado”.
Ao telefone com o PÚBLICO, o humorista que é também um dos comentadores no programa Governo Sombra da TSF e transmitido pela TVI24, lembra ainda sobre o seu papel no futuro programa e no passado: “As perguntas políticas podem ser piadas com um ponto de interrogação no fim, mas na verdade são perguntas políticas. Quando perguntei a Sócrates em 2009 se, porque a Clara de Sousa tinha estacionado no meu lugar, se podia acabar com o Jornal da Noite [da SIC], era político porque se relacionava com o que ele tinha feito à Manuela Moura Guedes” na TVI.
Mas sendo o foco na comunicação política, os jornalistas também desempenharão o seu papel em Isso é tudo muito bonito, mas. Ricardo Araújo Pereira começa solene, ciente de que “os jornalistas têm cada vez mais constrangimentos”, nomeadamente financeiros, e “um jornalismo pior dá uma democracia pior”. Mas também sofrem de um “deslumbramento tecnológico”, diagnostica. Se já se falava de segways na cobertura da campanha de 2009 nos estúdios das emissões grandiloquentes ou do “equivalente jornalístico do cão a ladrar aos pneus do carro que é o jornalista que se monta numa mota e aponta a câmara para dentro de um carro”, hoje “o deslumbramento que os jornalistas têm pelas redes sociais é um pouco difícil de compreender”. 
“Quando acontece uma coisa há sempre uns a dizer uma coisa e outros a achar o contrário numa rede social. Num snack-bar também. Nunca vi um jornalista recolher testemunhos nos snack-bars”.
Isso é tudo muito bonito, mas estará no ar um mês, cinco dias por semana e uma dessas semanas será a do rescaldo das legislativas de 4 de Outubro. Tiago Dores poderá ter uma participação ou outra e o programa gostaria de contar com saídas “em reportagem”, mas ainda se procura uma solução. “Em princípio o programa é refrescante porque é dos poucos que tem comentadores políticos na TV que nunca tiveram cargos políticos. Os comentadores em Portugal premeditam da política. Felizmente que, para nós e para o país, nunca tivemos cargos políticos”, remata Ricardo Araújo Pereira.

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