13 de março de 2013


Não estava à espera que o achassem "muito giro", nem que lhe perguntassem porque não decidiu ser atleta face ao "forte corpo" que apresenta. Hoje, em Macau, mais do que surpreender, Ricardo Araújo Pereira foi o surpreendido. 
Logo à entrada, Ricardo Araújo Pereira extasiou os mais novos, em particular  a ala feminina, arrancando 'assobios'. Mas a primeira pergunta a si dirigida,  e em forma de elogio, acabaria por ser proferida no masculino: "Tem um corpo  forte. Joga futebol ou basquetebol? Porquê decidiu ser autor e não atleta?"  Antes da resposta, um riso maroto: 
"Obrigada pela pergunta, e por dizer que o meu corpo é forte. Não estava  à espera disto", afirmou o humorista. 
"Gosto muito de jogar futebol, mas não tenho jeito. A minha profissão  é ser humorista. (...) No Ocidente, o riso tem má fama, porque a religião  tem peso (...) e o Deus mais importante não ri. Aqui, é diferente, há um  buda que ri". 
Ricardo Araújo Pereira confrontou-se também, pela primeira vez, com  a barreira da língua. "Hoje sinto-me particularmente estúpido por não falar  chinês. Um terço da humanidade fala chinês e a única coisa que sei dizer  é 'Tsingtao'  (marca de cerveja chinesa), por isso, para mim, é muito difícil  transmitir seja o que for", disse, fazendo esboçar sorrisos na jovem plateia  visivelmente encantada com a sua aparência física. 
"Não parece um humorista", atirou outro estudante. Ricardo Araújo Pereira  voltou a franzir a sobrancelha, respondendo em jeito de brincadeira: "Acho  isso muito curioso. Não sei como se parece um humorista, mas vou tentar  ser mais parecido. Acho que não estavam à espera de um nariz vermelho e  de sapatos grandes?" 
Além das perguntas mais naturais sobre como e porquê começou a escrever  peças de humor, a tónica foi sempre colocada num outro ponto de vista. "É  muito, muito giro. O que o levou a fazer isto?", lançou uma aluna, corada  antes da resposta. "Aparentemente, sou bonito na China e não o sou de todo  em Portugal", afirmou o humorista, explicando depois as razões por detrás  da "paixão" que sente pelo que faz no dia-a-dia como forma de vida. 
"Apaixonei-me pelo espasmo que o rosto faz quando se ri. É muito bonito  e misterioso. Causar essa reação (em alguém) sem lhe tocar é extraordinário.  É algo muito poderoso" explicou. Sobre a sua "obra favorita", reconheceu  não estar muito familiarizado com a literatura 'made in China', apontando  que aprecia prosa que arranca sorrisos, citando Cervantes, bem como títulos  'tricky' (trapaceiros), exemplificando com "Three Men On a Boat", do britânico  Jerome K. Jerome. 
"Mas porquê ser escritor? Escrevo porque não sei fazer mais nada", admitiu,  ao realçar que a dada altura ficou "consciente de que podia fazer coisas  com palavras", dado que não era muito bom a interagir fisicamente com as  pessoas na hora de expressar algo. 
Do lado dos mais crescidos também houve perguntas: "Como é que se consegue algo de novo todos os dias?" Isto face ao facto de o humorista assinar uma crónica semanal para a revista Visão, de ter estado dedicado, no último  ano, ao "Mixórdia de Temáticas", da Rádio Comercial, e de integrar o "Governo  Sombra" da TSF. A resposta foi pronta: o Governo inspira. 
"Parte do meu trabalho é sátira política. A minha inspiração é o nosso Governo que é mesmo muito mau. O Governo dá-me muitas ideias", rematou Ricardo Araújo Pereira, 'atacado' no final da sessão por dezenas de estudantes eufóricas  para posar ao seu lado na fotografia. 

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