10 de setembro de 2009

Eles estarão com Paulo Portas (dia 16), Francisco Louçã (dia 17) e Jerónimo de Sousa (dia 21), mais para a frente, com António Costa. E estão no Twitter, no Facebook e na SIC - mas só até ao final de Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios. O contrato com a estação de Carnaxide termina no final de 2009 e não estão previstos para este ano mais programas do quarteto humorístico na SIC. Depois, entram em regime free-lance, produzindo os seus próprios programas e apresentando-os ao mercado. Mas saem deste modelo de contratação com um programa que consideram "impossível".

É um dos formatos (humorísticos) de maior sucesso internacional que faltava explorar em Portugal e que tem nestes 30 dias de campanhas e eleições legislativas e autárquicas o seu pasto perfeito. À imagem do "Daily Show" com Jon Stewart, os Gato Fedorento vão voltar a esgravatar a actualidade num contexto ideal para um grupo que, como explicou Miguel Góis ao P2, se alimenta "da barafunda e da confusão".

Será que o formato à la "Daily Show" só é possível em Portugal numa conjugação astro-política como esta? "Não sei se será a única altura, mas à partida é uma boa altura para tentar", comenta Tiago Dores.

Enquanto aguardam, optimistas, pelas respostas de Manuela Ferreira Leite e de José Sócrates sobre se irão ou não ao Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios, Tiago Dores (T.D.), José Diogo Quintela (J.D.Q.), Miguel Góis (M.G.) e Ricardo Araújo Pereira (R.A.P.) consomem notícias. O novo programa, que Ricardo Araújo Pereira descreve como "uma espécie de Jon Stewart das barracas, um "Daily Show" pelintra", terá os elementos que os espectadores da SIC Radical e da SIC Notícias já conhecem do "Daily Show". Aproveitar as notícias e o que nelas às vezes corre mal - aos jornalistas ou aos protagonistas - para salientar o que de mais incongruente ou, simplesmente, ridículo há nelas.

Não há tempo para maquilhagens e caricaturas, porque se trata de um directo diário, mas há muitas imagens para comentar - do dia e do passado recente. É que casos como o Freeport, as escutas em Belém, o fim do Jornal de Sexta da TVI e afins prometem deixar lastro futuro.

R.A.P. - O modelo é o do Jon Stewart: um apresentador conduz a emissão e depois há uma entrevista com um político...

M.G. - ...ou um analista político, ou um jornalista político...

T.D. - ...ou um politólogo...

M.G. - ...ou um carpinteiro, se for politizado.


A magia do directo

Cada semana, um dos Gato fará as vezes de apresentador. Entre 14 de Setembro e 23 de Outubro os Gato Fedorento estarão no horário nobre da SIC, às 21h15, em directo - coisa que não lhes agradava muito. "Achámos que um tratamento diário de 25 minutos era a melhor forma de curar esse problema", explica Tiago Dores. "O facto de ser directo não é tanto uma escolha como uma necessidade, ou se calhar é as duas. Se fosse um pré-gravado, perderíamos necessariamente duas horas de trabalho do dia. Além do impacto diferente que pode ter o directo e de nos permitir, por exemplo, comentar coisas que aconteceram imediatamente antes no Jornal da Noite, o que é uma mais-valia."

Z.D.Q. - E perdíamos também a chamada "magia do directo", que é o termo técnico para a cagufa.

R.A.P. - E para coisas que correm mal. A isso chama-se a "magia do directo".

Depois das séries para a SIC Radical, centradas no humor de costumes e nos "cromos", o Gato Fedorento passou para o formato magazine e para a caricatura política e de actualidade com Diz Que É Uma Espécie de Magazine, na RTP1. Zé Carlos, já no regresso a Carnaxide, foi mais uma viagem nesse veículo. Em Maio, diziam que o regresso aos ecrãs seria num formato de sketches. Mas tudo mudou no Verão e agora o formato "Daily Show" será uma espécie de corolário do percurso de um dos grupos de humoristas mais relevantes do século XXI português?

Não, respondem. Foi a direcção da SIC que lhes propôs, há cerca de dois meses, um programa "que está, em termos televisivos, nos antípodas do que [queriam] fazer". "Isto denota bem que o nosso caminho está longe de ter uma lógica, é antes um caminho absolutamente errático", diz Tiago Dores, com a costumeira menorização com que o grupo explica o seu trabalho e gere expectativas em relação ao mesmo. A SIC quer com isto marcar a agenda das campanhas com este programa. E os líderes partidários aguardam as entrevistas com tranquilidade, como diria o Paulo Bento de Ricardo Araújo Pereira.

O frente-a-frente com as figuras que passaram os últimos anos a caricaturar na TV ocupará entre oito e dez minutos do programa. O resto é "comentário humorístico diário". "A entrevista também tem uma preparação criativa, porque as perguntas que vamos fazer não vão ser as mesmas que a Judite de Sousa faz", esclarece R.A.P. Sobre se as questões são combinadas com os protagonistas ou se há temas proibidos, o humorista troça, com reservas: "Acho que não devíamos dizer isso à imprensa. A haver qualquer coisa, devia ser mantido entre nós e os convidados. Tem a ver com a magia dos bastidores."

A relação entre humor e política e as fronteiras do que é ou não jornalismo esbateram-se nos últimos anos. Mesmo em Portugal, o programa Caia Quem Caia, da TVI, gerou debate sobre a miscigenação do humor e do jornalismo. E os Gato fizeram intervenção política, quando o sketch do referendo do aborto ou o cartaz anti-PNR no Marquês de Pombal fizeram notícia. Coisas sérias, portanto, para um grupo que, diz o site do programa (para espanto dos Gato), amadureceu e cresceu.

José Diogo Quintela é o primeiro a tocar na tecla que Jon Stewart ouve tinir há uma década: "Nós não somos jornalistas." O tema é tão incontornável quanto uma pergunta ao Presidente da República sobre as relações com o Governo.

Muitos jovens americanos (e mundo fora, dada a penetração internacional do programa) têm o "Daily Show" como fonte primordial de informação, apesar de o que ali é feito serem fake news; muitos convidados eméritos (Obama, Clinton, Carter, Blair, Musharraf, McCain, Ted Kennedy, Prémios Nobel vários) fizeram história no programa da Comedy Central; o programa tornou-se também um fórum de crítica e revisão sobre o funcionamento dos media e a liberdade ou inércia da imprensa.

Tudo isto se junta a uma tradição anglo-saxónica em que a relação dos políticos com os media e com os talk-shows é distinta da dos reservados portugueses. Ainda assim, António Costa e Santana Lopes lá foram ao 5 para a Meia-Noite (RTP2) e agora os líderes do PCP, do Bloco e do PP estarão à mesa com os Gato Fedorento - que continuam a considerar-se "apenas" humoristas, diz Quintela. "O nosso objectivo não é sacar um furo jornalístico ou esperar que algo nos seja revelado em primeira mão. É aproveitar termos lá pessoas que normalmente não estão nesta posição - que é serem entrevistados por palermas - para entreter os espectadores." "Para se informarem, aconselho as pessoas a lerem jornais. Não todos, mas alguns."

Ricardo Araújo Pereira acrescenta que as questões a colocar aos entrevistados terão de encontrar um equilíbrio e de se afastar do "achincalhar" e do "engraxar". "Queremos falar de coisas que normalmente não são faladas, mas se for para fazer alguma coisa será achincalhar engraxando", brinca José Diogo Quintela.

O programa impossível

Oito pessoas - quatro Gato e quatro jornalistas da SIC, liderados por Mário Carneiro - farão o programa. Os três que não estiverem a apresentar o programa servirão como comentadores ou "correspondentes" segundo o modelo da Comedy Central.

E o resto será trabalho intensivo. "É importante dizer que somos os mesmos quatro que vão escrever 25 minutos de televisão por dia - o que eu diria que é absurdo e impossível", repete Ricardo Araújo Pereira. "Temos de facto uma ajuda", a da equipa de jornalistas que pesquisam e propõem histórias. "Mas continua a ser absurdo que quatro pessoas cheguem aqui às 8h ou 9h para começar a escrever o programa e às 21h parem de escrever para ir apresentá-lo", vinca.

"A vantagem de ser em directo e diário é o programa poder constituir um comentário humorístico ao dia", diz R.A.P. "A desvantagem é ser impossível."

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